quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Under Cover Of Darkness

UM
 Encarei aquela fila enorme e senti vontade de voltar pra casa, me cobrir com meu edredom e ficar lá o resto do dia. Odeio filas. Puxei o ar lá do fundo e soltei. Esperei a fila se desfazer e entreguei meus documentos ao moço.

- Pronto - agradeci e continuei, troquei minha passagem por um crachá da primeira classe, entrei e me sentei numa das poltronas do fundo. Já que se o avião cair, ao menos de bico para o chão, as pessoas do fundo seriam salvas ou teriam poucos ferimentos. E bom, ele tem mais chances de cair de bico. 

 Paris é o meu destino, vou morar por lá algum tempo. 
Desci do avião e suguei todo o ar que coube em meus pulmões, o ar Francês é mágico. Soltei o ar enquanto caminhava para o saguão do aeroporto. Peguei minhas malas e a mochila de tecido jeans surrado, assinei algumas coisas e esperei pelo táxi que meu pai havia dito que chegaria. A França continua linda. O motorista daquele carro preto e bonito, cujo eu não saberia dizer o nome, saiu segurando uma plaquinha onde pudia-se ler ”Hayley Williams”, sorri e caminhei até ele. 

- Bonne journée - sorri 

- Não lembra mais dos amigos de infância. - Então eu gelei, era péssima em lembrar das pessoas. Encarei o loiro em minha frente e quase quis morrer por não lembrar dele. 

- JEAN! - gritei enquanto largava o puxador das malas e abraçava o meu amigo quase irmão de infância.

- Achei que não ia lembrar de mim - disse ele enquanto pegava minhas malas e colocava na mala do carro. 

- Eu não sou boa fisionomista, sabe disso. E você cresceu! 

- É, você também. 

Eu e Jean crescemos juntos, ele morava no apartamento ao lado do que eu, meu pai, minha irmã e minha mãe morávamos, anos atrás. 

- Ei moça, o que andou fazendo? 

- Nos últimos tempos só me concentrei em terminar a faculdade.

- Só isso? É, eu nunca esperei que você virasse uma baderneira, mesmo. - ri com o comentário 

- E você moço, o que andou fazendo?

- É, eu diria que fiz mais coisas que você. - Ri entre os dentes. 

- Onde estão o resto do pessoal?

- Nick virou artista plastica, o que acho, que você já sabe. Julian virou o Doutor Julian. Eu, bom… Eu resolvi trabalhar pro seu pai. Mas fiz faculdade de cinema, igual a você. E entrou um pessoal pro nosso grupinho, logo quando você foi morar com sua mãe, na Inglaterra. Alex, Wallace e Taylor. Eu realmente gostei deles, e são nossos amigos até hoje. Só faltou você, nossa tampinha. 

- Esse apelido rendeu bicos - ele riu e eu ri junto.

- Deve estar cansada, vou levar suas coisas pra cima. Meu chefe, seu pai deixou o seu apartamento antigo pra você, já que agora ele mudou pros lados comerciais da cidade. 

- Que surpresa incrível! Eu achei que teria de morar com meu pai, naqueles lados movimentados de Paris. 

- Sabia que ia gostar. Não te tenho no facebook, ou em qualquer outra rede social - ele puxou um cartão e eu peguei, o mesmo puxou as malas do carro, fechou e arrastou as mesmas até a escada daquele prédio, onde passei muito tempo da minha vida. E que eu tinha um carinho enorme. Puxei o ar daquele lugar tão meu, soltei devagar para que ele permanecesse em mim pelo máximo de tempo que eu conseguisse guardar. - A pequena com saudades - ri entre os dentes

- É, muitas! - Ele abriu a porta do apartamento e colocou as malas lá - não quer entrar?

- Outrora, você precisa dormir. Tchau pequena. - abracei ele novamente, dessa vez mais apertado. - Ó, se prepara, o pessoal vem te ver hoje a noite! Vamos passear. - Eu larguei um sorriso largo e ele riu junto, acenou e desceu as escadas.


 Eu estava me sentindo de volta ao meu cantinho, desde os meus dez anos de idade não me sentia assim, era como se eu estivesse longe do meu melhor pedaço. Eu estava deslocada na Inglaterra, apesar de amar minha mãe e o país. Arrumei as coisas no meu guarda-roupas e fui andar pelo resto da casa. Pouca coisa tinham mudado.

 Eu não dormi quase nada, fiquei colocando ideias no lugar, tomei um banho, troquei de roupa e fiquei ansiosa pra ver os meus amigos. Eu não sei o que me faz achar que só posso viver aqui, ser feliz aqui e com essas pessoas. Talvez só os Franceses possam acolher essa ”tampinha”. Ri com meus pensamentos e fui fazer alguma coisa pra comer, havia muita comida  congelada, meu pai deve ter se preocupado com isso. Coloquei uma fatia de pizza no microondas e esperei pelo apito. Comi e voltei pro quarto, passei pelo quarto da minha mãe e do meu pai, passei pelo quarto da minha irmã e pela área. Eu amava estes cômodos, e deles eu nunca tinha esquecido. Das pessoas, eu sentia falta todos os dias, e não ter me lembrado do Jean não quis dizer o contrário. Mas é que eles não tinham crescido na minha mente. Eles eram aqueles guris felizes que andavam de bike por todo quarteirão, comigo. 
DOIS
 A campainha apitou, a velha campainha… Arrumei meu cabelo e abri a porta, eram eles. Eu não sabia se abraçava ou se tentava substituir os rostos que antes eu reconheceria mesmo no escuro. 

 - Bonne nuit - saiu a boca de Jean! - Todos soltaram a respiração e me abraçaram em grupo, menos dois rapazes e uma moça, que riram leve. 

- Nick! Julian! - Abracei eles separadamente. 

 Julian cresceu, Nick era um pouquinho mais baixa que eu, ainda. Tinha cabelos castanhos, olhos da mesma cor, pele morena e usava um vestido preto e branco, que combinavam com sua moleca preta. Julian usava uma calça social, uma pollo de mangas e sapatos sociais, tinha o cabelo todo desarrumado, como o do Dylan nos anos 70. 

- Minha tampinha - disse Nick, minha melhor amiga. - Achei que nunca viria!

- Olá pra vocês! - falei cumprimentando os dois rapazes e a menina. Eles muito simpáticos, retribuíram.

 A moça, Taylor, que pediu para que eu chamasse-a de Tay, era branquinha, loirinha, tinha o cabelo cortado bem parecido com o de Nick, só que escorrido de liso. Muito simpática. Alex era calado, mas deu um sorriso meio amarelo pra mim, tinha um topete alto, pele branca e usava um gel pra mantar o topete alto. E por último, o bem humorado Wallace. Era negro, alto, usava roupa social também. Era jogador de basquete nas horas vagas, como profissão ele era veterinário.

- Vamos ao restaurante aqui perto! - Disse Jean.

- Jean sempre escolhe o lugar - disse Julian 

- isso é porque sempre acerto! - Todos riram 

 A noite terminou bem, colocamos os assuntos em dia, e ainda me familiarizei com um dos rapazes e a moça. Um deles não parava de me olhar, mas também não parecia querer socializar comigo, eu já estava vermelha. Ele largou o cigarro no cinzeiro do balcão onde estava e veio em minha direção.

- Então, eu levo você, Williams - Ele me surpreendeu.

- Por favor, nada de Williams, me chame de Hayley.

- Ah, claro.

- E aceito sua carona.

- Vamos? - Eu assenti enquanto me despedia o pessoal.

- Ei Nick, se não quiser alugar um quarto em qualquer lugar, venha morar 
comigo - ela largou um sorriso aberto, retribui e dei um abraço nela.

- Amanhã eu passo lá.

- Tudo bem, vou aproveitar a gentileza do rapaz ali.

- Ele não é gentil, é bipolar - rimos

- Ah, não fale assim. - rimos novamente e eu fui em direção a ele.  

- Podemos ir.

- Finalmente - cuspiu a palavra em certo tom de tédio. Não retruquei, entrei em seu carro e ele dirigiu até o ‘pequeno prédio’. 

- Obrigada, é… Qual seu nome?

- Você é péssima com nomes! - Saiu meio ofensivo, mas deixei pra lá 

- É, eu sei. 

- Aproposito, meu nome é Alex, Alex Turner.

- Obrigada Alex. Venha, vamos tomar um café!

- Não, obrigado.

- Então tudo bem, obrigada pela carona. - Tentei cumprimenta-lo com um beijo na bochecha mas ele estendeu a mão. Apertei.

 Naquela tarde de sábado, segunda tarde da minha ”volta” pra casa, foi quando eu resolvi abrir os olhos. Cerrei-os lentamente e levantei. Molhei o rosto no banheiro e fui pra cozinha, fritei ovos e comi. Fiz minha higiene matinal e fiquei jogada no sofá assistindo tv. Antes, havia uma pequena tv, agora uma que quase tomava toda a parede. Resolvi ligar pro meu pai e pra minha irmã, fazia tempo que não falava com ela pessoalmente. Disquei  seu número e esperei que a mesma atendesse, o que sempre demorava. 

- Alô? 

- Oi mana, sou eu, Isa!

- Oi meu amor, você já chegou?

- Sim, sim. Tô aqui no nosso apartamento antigo. 

- Papai não te comprou um novo? Quer que eu fale com  ele? Esse ai não está velhinho? 

 Ao contrário de mim, ela não ligava muito pra essas coisas. Ela gostava de tecnologias e de nada que passasse muito tempo com ela.

- Não, não precisa. Eu adoro este lugar - ela riu 

- Então tudo bem. Eu passo aí assim que voltar da Austrália. 

- Tudo bem, vou arrumar as malas. Beijo. 

- Beijo. Tchau.

 Desliguei e fui arrumar as malas no meu quarto. A campainha tocou. Olhei pelo olho mágico e era a Nick, abri a porta e dei espaço pra mesma me abraçar.

- Boa tarde senhorita. 

- Boa tarde Nick. - Fechei a porta atrás de mim e sentamos no sofá.

- Ainda bem que voltou. Senti sua falta. 

- Eu também senti a sua - respondi - Quero que more aqui comigo.

- Tudo bem, eu ia alugar outro lugar mesmo. 

- Aqui você não precisa pagar aluguel.

- Não é assim também, dona Isa.

- É sim, já que nem sou eu que pago nada por aqui. - Ela riu e me abraçou 

- Como foi a carona com o estupido do Pierre? 

- Normal. - Falei indo em direção ao quarto da minha irmã. 

- Ele é assim, mas no fundo é legal. Só é meio fechado. - Ela veio falando atrás de mim.

- Ele parece legal. Isso aqui é onde você vai ficar, espero que dê pra você.

- Isso é duas vezes maior que o lugar que eu iria alugar - rimos

- Ainda bem! - Respirei aliviada

- Vem cá minha tampinha, obrigada. - disse ela me abraçando

- Ei Nick, você não tem direito de me chamar assim, já que você é menor e mais nova que eu. - Gargalhamos  

- Tudo bem, eu venho amanhã com minhas coisas. 

- Amanhã? Mas achei que fosse dormir aqui.

Cerrei os olhos na tentativa de ver alguma coisa em minha frente. É, eu tenho problemas com sono. Levantei e lavei o rosto. Olhei pro relógio e



- 21:32 - berrei comigo mesma. Peguei o celular e tentei ligar pro meu pai, ele como de costume, não atendeu. Essas reuniões escrotas… Deixei uma mensagem. ”Daddy, cheguei muito bem. Assim que puder me ligue. Um beijo, Hayley.’’

A campainha tocou. Abri sem olhar.

- Oi! 

- Alex? - Fiquei surpresa.

- Boa noite. - Ficamos nos encarando, convidei-o pra entrar e assim ele fez. - O café de ontem ainda está de pé?

- Claro. - Sorri surpresa. - Deixa eu tomar um banho. Senta ai, fica de boa - ele riu, mas sentou 

 Entrei no banheiro do meu quarto, liguei a água quente e tomei uma ducha. Me vesti simples, e ouvi meu celular tocar.

- Alô?

- Oi Hayley, sou eu, o Jean, o pessoal resolveu ir pra seu apê, mas eu comprei entradas pra um restaurante muito legal, vai ter um show cover lá e karaokê a noite toda. 

- É que o Alex resolveu aceitar o café que sugeri ontem.

- Já falei com ele, e ele concordou. Parece que o cara acordou bem hoje - rimos

- Então tudo bem.

- Ok, tô indo direto, é só você ir com o Alex, ajeitei tudo com ele, agora pouco.

- Ok, beijo. 

  Desliguei e sai do banheiro, passei uma maquiagem leve, só lápis de olho e fui pra sala.

- Ei, vamos, o Jean ligou e… - interrompi 

- Eu já sei - sorri - vamos - Peguei a bolsa e pela primeira vez o cara sorriu pra mim. Eu não tinha reparado, mas ele era bonito, realmente bonito. Usava o mesmo topete estilo anos 60, óculos de aviador no bolso direito da calça, calça jeans preta escura e sapatos all star. Uma camisa branca, pollo e uma jaqueta jeans. 

 Fechei a porta e descemos, ele abriu a porta do carro pra mim, entramos e ele dirigiu. Eu aproveitei pra olhar a iluminação perfeita de Paris. E eu pensei o quanto poderia ter sido com o café com ele, ele parece ser um cara interessante, e cheio de segredos pra desvendar. 

- Ei pensativa, chegamos! - disse ele já abrindo a porta do carro pra mim.

- Obrigada cavalheiro. - Ele riu e ajeitou o topete cheio de laquê pra manter aqueles fios lisos no ar. Ouvi o grito de Jean e me virei, cumprimentei o pessoal e ele também, logo entramos, sentei ao lado da Nick.

- O que você estava fazendo com o Alex? - sorriu safada 

- Nada oras - fiquei vermelha e ela riu alto, o pessoal voltou a atenção pra nós, mas logo voltaram a falar sobre um tal jogo de futebol americano. - é sério, não foi nada, seria um café e só isso, mas nem isso foi - ela riu abafado

- Tudo bem, só estou brincando

- Sua besta - abracei ela de lado 

- Estou encrencada, estou apaixonada 

- Quem é o sortudo?

- É um cara da academia de artes plásticas. Mas acho que ele não repara em mim.

- Só vai saber de um jeito, vamos chamar ele pra sair com a gente um dia desses, logo vou te visitar nessa academia e a gente resolve isso - ela me abraçou apertado.

- Vocês duas vivem se abraçando - retrucou Julian

- Deixa elas! - A Tay falou

- Obrigada Tay - agradeceu Nick

- Olha lá Alex, precisam de um guitarrista. - Gritou Jean, que equilibrava algumas taças de vinho do balcão a mesa - pega sua guitarra no carro, e toca. 

Alex levantou e foi até o carro, ele era meio calado. Alguns minutos depois ele voltou e dessa vez trazia um instrumento encapado, subiu no palco e falou alguma coisa com os caras da banda, levantamos da mesa com o aviso do baterista, que chamou todos pra frente do palco, Alex estava ajustando a guitarra.

- Vamos tocar ”Old Yellow Bricks” - Gritou o baterista. Ligaram os microfones, Alex estava na frente, segurando uma guitarra eagle, branca com a bandeira do Reino Unido estampada. 

- Old yellow bricks, love’s a risk, quite the little escapologist looked so miffed, when you wished, for a thousand places better than this, you are the fugitive but you don’t know what you’re running from… 

 A música acabou e eu involuntariamente estava suada, e berrando com a Nick toda a letra da música. Ele e a banda desceram do palco e todo o pessoal, antes sentado nas mesas, agora em frente ao palco, aplaudiram e gritaram, ele estava suado, guardando a guitarra na capa de couro. 

- Adorei - disse perto dele. 

- Obrigado.  - Ele disse sério e caminhando até a mesa do pessoal, que agora comia pizza e tomava vinho. - Eu preciso ir, estou com dor de cabeça;

- Vê se a Hayley não quer ir com você, ela é a única que pode aproveitar sua carona. Além do mais essas suas dores na cabeça estão constantes, é melhor que vá com ela. - disse o Julian.

- Eu vou sim, tô meio cansada. - Respondi.

 Então fui pro carro do Alex, que se manteve sério. Ele dirigiu calado até a porta do prédio.

- É melhor eu ir com você, de lá eu volto. Você precisa de ajuda, parece sentir muita dor.

 Ele nem respondeu. Entramos em seu apê, e de cara, uma estante com MUITOS filmes e cds, alguns livros e uma tv lcd grande. Um som potente ao lado, e três pilhas de vinis, o pessoal entrou e sentou, eu sentei em uma das poltronas e ele me chamou pra ajudar a pegar as coisas.

- O que vamos fazer? - perguntou ele. Sem tempo de resposta ele ficou tonto e se escorou na parede, ele parecia agoniar de dor, eu arrastei ele até o sofá, onde o mesmo se deitou, tirei seus sapatos e abri seu capote, ele tirou e jogou em qualquer canto. 

- Vou ver o que tem pra dor de cabeça. Quer que eu chame o Julian?

- Não, não. Tenho remédios na primeira porta do primeiro armário, na cozinha.

- Eu vou pegar. - Procurei por copos, não foi tão difícil, estavam a mostra na cozinha. Peguei alguns remédios leves e levei pra ele, que engoliu todo sem a água.

- Olha, obrigada. Acho melhor você dormir aqui, tá tarde.  Mas se quiser posso te levar de volta.

- Eu fico.

- Durma no quarto de hospedes. - Ele levantou com minha ajuda e abriu a porta pra mim. - Fique à vontade, pode pegar comida no frigobar, tomar banho, qualquer coisa. 

 Vi que ele se jogou na cama de qualquer jeito. Fui até ele novamente.
- Não acha melhor chamar o Julian?

- Não, vai ficar tudo bem. - Me sentei na ponta de sua cama, ele me puxou devagar, acho que com medo da minha reação, me fazendo deitar ao seu lado, tirei meu sapato, me ajeitando melhor, e colocando sua cabeça na altura de minha barriga, fiz cafuné até quando percebi que ele pegou no sono.

Nenhum comentário:

Postar um comentário